Os três motivos que ainda afastam os planejadores dos criptoativos

por: Carlos Castro, CFP® em 05/08/2026

Planejamento Financeiro

Durante muitos anos era possível justificar a ausência de criptoativos nas recomendações pela falta de regulação. Essa justificativa perdeu força. Desde 2 de fevereiro deste ano estão em vigor as Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central, que submetem as prestadoras de serviços de ativos virtuais à autorização prévia, à supervisão contínua e a exigências de capital, governança e controles internos, com prazo de 270 dias para que as empresas já em operação protocolem o pedido de autorização. Antes disso, a Resolução CVM 175 já havia incorporado os ativos virtuais ao ambiente regulatório dos fundos de investimento, permitindo sua exposição dentro de limites específicos. Os criptoativos passaram, portanto, a integrar formalmente o perímetro regulado do mercado financeiro.

No entanto, vejo que ainda há resistência na indicação de criptoativos para as carteiras dos clientes, e essa resistência vem mais do profissional do que do cliente. Identifico três motivos e seus respectivos contrapontos.

1) Ausência de um modelo de avaliação

Aprendi, como todo mundo que estudou finanças, a fundamentar análises em modelos como o fluxo de caixa descontado. Criptoativos não têm lucro, não pagam cupom. Quando falta o instrumento que legitima uma análise, é confortável concluir que é melhor não indicar.

O problema é confundir método de precificação com razão econômica para manter um ativo em carteira.

A ausência de um método conhecido não é a mesma coisa que ausência de fundamento. O ouro e a moeda estrangeira também não geram fluxo de caixa e nunca foram excluídos das carteiras por isso. Entram pela função que exercem no conjunto, e não pelo valor que se calcula isoladamente. É exatamente assim que se deve olhar para os criptoativos. O que justifica a presença de um ativo em uma carteira não é o modelo que o precifica, mas o comportamento que ele apresenta em relação aos demais ativos.

2) Distribuição

Os criptoativos nasceram fora dos canais pelos quais o mercado tradicional apresenta produtos ao cliente. Não estavam na prateleira das plataformas, não apareciam na posição consolidada, não tinham classificação de perfil de risco, não eram oferecidos por gestores conhecidos e, durante muito tempo, ficaram fora dos incentivos comerciais que impulsionam a distribuição dos produtos tradicionais. Um ativo que não circula pelos canais habituais simplesmente demora mais para chegar ao mercado.

Essa barreira, porém, já caiu. Hoje existem ETFs negociados na B3, fundos de investimento dentro dos limites estabelecidos pela CVM e custódia em instituições autorizadas pelo Banco Central, com a posição aparecendo no extrato como qualquer outro ativo financeiro.

3) Reputação

Os criptoativos foram o veículo preferido de pirâmides e fraudes na última década e, por muito tempo, transferiu-se para o ativo a mancha do crime cometido com ele.

O contraponto é que aquilo que tornava a fraude possível era precisamente a ausência de intermediário autorizado, de responsabilidade sobre a custódia e de regras de prevenção à lavagem de dinheiro. É exatamente isso que a regulação passou a endereçar.

Superados esses três pontos, temos razões técnicas para considerar os criptoativos como uma classe de ativos que pode fazer sentido em determinadas carteiras.

Markowitz demonstrou, em 1952, que o que melhora uma carteira não é a qualidade isolada de cada ativo, mas a correlação entre eles. O Bitcoin, apesar de apresentar uma das maiores volatilidades entre os ativos financeiros, historicamente apresentou baixa correlação com os ativos tradicionais. Essa característica permite deslocar a fronteira eficiente, melhorando a relação entre risco e retorno. Estudos acadêmicos que aplicaram esse modelo ao mercado brasileiro encontraram deslocamentos positivos e estatisticamente significativos, com aumento do retorno esperado para o mesmo nível de risco. Vale registrar que essa correlação não é estável e tende a subir nos momentos de estresse.

A volatilidade, que em ciclos anteriores levou o Bitcoin a quedas próximas de 80% do seu valor, é justamente o que define o percentual aceitável na carteira. Uma queda de 80% em uma posição de 2% de alocação em Bitcoin produz uma perda de 1,6% no patrimônio total, algo que uma carteira diversificada consegue absorver sem comprometer o plano do cliente. Uma valorização de cinco vezes na mesma posição acrescenta oito pontos percentuais ao resultado. A perda máxima é limitada pelo tamanho da posição. O potencial de ganho, não.

É essa assimetria, e não uma aposta na alta, que justifica a alocação. O objetivo não é prever o futuro do Bitcoin. É utilizar uma classe de ativos com correlação imperfeita por meio de uma participação pequena e submetida ao processo contínuo de rebalanceamento.

Nos Estados Unidos, os ETFs de Bitcoin à vista aprovados em janeiro de 2024 já acumulam dezenas de bilhões de dólares em captação líquida, com participação crescente de investidores institucionais que, até pouco tempo atrás, tratavam o tema como pertencente a outra categoria de investimento.

O cliente pode avaliar o tema e decidir não investir em criptoativos. Essa é uma escolha legítima.

O que não é legítimo é que ele permaneça de fora porque essa possibilidade nunca lhe foi apresentada.

Nosso desconhecimento não é prudência. É apenas desconhecimento.

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Carlos Castro, planejador financeiro, membro do Conselho de Administração da Planejar, CEO e sócio fundador da SuperRico, plataforma de saúde financeira.